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Mais tecnologia, mais desigualdade: como a pandemia mudará o mercado de trabalho

Publicado em: Sábado, 01 de Maio de 2021, 10:52h - Por: Redação
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Para além do efeito perverso na saúde da população, a pandemia de Covid-19 foi um choque para o mercado de trabalho do mundo todo. 

Num primeiro momento, empresas fecharam e milhões de pessoas perderam seus empregos. Ao mesmo tempo, a necessidade de manter o distanciamento social acelerou mudanças que já vinham acontecendo, sobretudo tecnológicas.

Algumas delas devem prevalecer no pós-crise. Veja cinco tendências.

1. Mais tecnologia, menos humanos

A crise acelerou o uso de novas tecnologias de automação na indústria, de inteligência artificial e o processo de digitalização nos negócios --em especial do sistema financeiro. Faz parte desse processo também a economia dos aplicativos, que se tornou mais presente na rotina de muitos consumidores e de trabalhadores do setor.

Se, de um lado, essas transformações trazem novas oportunidades no campo profissional e facilidades para os usuários, de outro, podem eliminar funções. 

Um exemplo bastante presente no último ano foi no comércio eletrônico. “Diante da dificuldade de abrir lojas físicas, negócios investiram mais nas vendas a distância, o que, muitas vezes, exige menos trabalhadores”, diz Fernando Veloso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).  

A influência maior do processo de automação pode ser dramática entre trabalhadores da indústria. Nesse setor, mais de 100 milhões de pessoas poderão ter que mudar de ocupação ao longo da próxima década, segundo estudo recente da consultoria McKinsey. Esse número representa um aumento de 12% em relação às projeções anteriores à pandemia nos países em desenvolvimento e de 25% nas economias avançadas.

Em países emergentes, como é o caso do Brasil, a mudança deve ser menos relevante, porque o setor de serviços é mais representativo na economia. “Serviços não têm tanta facilidade de usar essas novas tecnologias, porque são muito intensivos em pessoas”, explica Veloso. "A automação afeta mais trabalhadores da indústria”.

2. Menos presença física

Reuniões que podem ser substituídas por um e-mail. Viagens que podem ser evitadas com o uso do Zoom ou do Teams. A cultura corporativa precisou se adaptar ao distanciamento e, muito provavelmente, vai assimilar muito dessa nova realidade em sua estrutura.

Considerando apenas o trabalho remoto que pode ser feito sem perda de produtividade, a Mckinsey estima que cerca de 20% a 25% da força de trabalho em economias avançadas poderia trabalhar em casa entre três e cinco dias por semana. 

“Isso representa quatro a cinco vezes mais trabalho remoto do que antes da pandemia e pode levar a uma grande mudança na geografia do trabalho”, diz a consultoria.

A pesquisa mostra ainda que, apesar de ser esperada uma recuperação de viagens de lazer e do turismo após a crise, cerca de 20% das viagens de negócios, segmento mais lucrativo para as companhias aéreas, podem não retornar.

No Brasil, essa tendência do trabalho remoto também deve se fortalecer, mas em menor grau, já que a informalidade é muito presente no país, e o trabalho a distância só funciona bem entre trabalhadores mais qualificados. 

“As empresas brasileiras não estão tendo investimento de upgrade tecnológico na mesma proporção, porque muitas ainda têm um esforço de sobrevivência. Por isso, esse tipo de avanço não deve ser uma determinante no pós-crise no Brasil. Vejo acontecendo numa parcela restrita do mercado”, pondera Gabriel Ulyssea, professor-assistente na Universidade de Oxford e especialista em trabalho.

Por outro lado, o especialista diz que o teletrabalho foi inserido na rotina de muitos profissionais e esse rearranjo produtivo pode perdurar em alguns setores. “Não sabemos ainda qual percentual vai continuar nesse regime de home office aqui, mas muitas empresas podem exigir que os funcionários estejam presentes duas ou três vezes por semana em vez de cinco”, prevê Veloso, do Ibre-FGV. 

3. Agravamento das desigualdades 

Um dos efeitos mais marcantes da pandemia no mercado de trabalho e que ainda deve perdurar, ao menos no Brasil, é o agravamento da desigualdade. 

A crise impactou de formas desproporcionais os trabalhadores informais --que dependem mais da circulação de pessoas--, e as mulheres, por conta do choque no terceiro setor, onde elas estão concentradas em maior número, e pelo aumento do tempo das tarefas domésticas, que recai nas costas delas de forma desigual. 

No caso da informalidade, que já era um problema sério no país antes da pandemia, abrangendo mais de 40% da população ocupada, os trabalhadores acabam sofrendo mais, já que não são cobertos pela legislação trabalhista e, em geral, não têm proteção social. 

Para especialistas, ainda é difícil prever o quanto essa fatia de trabalhadores, que abrange profissionais autônomos e pessoas sem carteira assinada, ainda vai aumentar, já que muitos saíram da força de trabalho, o que faz com que o número não seja inflado durante a pandemia. No entanto, a expectativa é que esse contingente cresça, o que exige do governo uma agenda de qualificação profissional. 

“Com o aumento do trabalhando remoto, muitos escritórios podem fechar ou receber menos pessoas daqui para frente. Isso afeta o restaurante, a condução, serviços de limpeza, segurança. Todos esses trabalhadores que faziam esses serviços de complementação do trabalho no escritório vão ser afetados negativamente”, diz Veloso. 

Outro grupo que deve demorar a se recuperar é formado por jovens em idade escolar. A crise se estende por mais de um ano e afetou profundamente a educação de crianças e adolescentes. O impacto é maior nos jovens de famílias mais pobres, com mais dificuldade de fazer ensino remoto.

“Isso é muito preocupante, porque um ano sem estudar, especialmente no começo da vida escolar, pode ter impactos muito grandes no desenvolvimento do profissional no futuro”, diz Ulyssea. Esse cenário pode aumentar também o abandono escolar, maior entre jovens do ensino médio. 

Todo esse atraso educacional pode ter consequências ainda mais graves para a produtividade da economia brasileira, que já sofre efeitos de estagnação há anos.

4. Maior concorrência também entre escolarizados

Como a cultura do trabalho a distância deve prevalecer em vários setores, a competição entre profissionais com maior escolaridade também pode aumentar. 

É cada vez mais comum ver empresas abrirem processos seletivos para funcionários que não moram necessariamente próximo ao escritório. Desta forma, o mercado se amplia até mesmo para moradores de fora do país.  

“A competição de emprego para esse grupo deixa de ser algo local. De um lado, a oferta de vagas aumenta, de outro, terão mais competidores”, diz Veloso.

5. Independência X segurança: novo equilíbrio?

Antes da pandemia, o mercado de trabalho global via um aumento de empregos mais flexíveis, tipicamente em empresas que trabalham com internet. Nessas posições, jovens mais qualificados podem prestar serviços quase como freelancers, com trabalhos específicos, sem vínculos com as empresas e mantendo uma certa independência.  

Agora, a expectativa é que essa tendência tenha uma força contrária. “A pandemia mudou a percepção de risco que as pessoas têm no mercado de trabalho. Isso pode gerar maior demanda por estabilidade”, diz Ulyssea. 

Um novo equilíbrio entre maior procura por estabilidade e mais independência, porém, só deve ficar mais claro quando a crise do coronavírus estiver melhor resolvida no mundo.  

“O quão duradora ainda vai ser essa crise e o quão recorrente pode ser? Será que teremos que conviver com esses choques recorrentes no mercado?”, questiona o economista. Nesse cenário, trabalhadores com carteira assinada ficam menos vulneráveis, seja porque têm acesso a programas de sustentação de emprego ou a crédito.

O que vai valer mais a pena, então? O tempo deve dizer.


Fonte: CNN Brasil

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