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Mercado ganharia quase R$ 1 tri se negros tivessem mesmo salário que os demais

Publicado em: Domingo, 02 de Maio de 2021, 09:08h - Por: Redação
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Se os profissionais negros (pardos e pretos) fossem remunerados como seus pares de outras raças no Brasil, quase R$ 1 trilhão de renda seria adicionado ao mercado de trabalho nacional. É o que aponta uma pesquisa encomendada pelo Grupo Carrefour ao Instituto Locomotiva, divulgada na última quarta-feira (28).

E isso ocorre porque, segundo dados do IBGE utilizados no levantamento, a renda média dos trabalhadores negros —que são mais da metade da população (56%)— é de R$ 1.865, enquanto o restante da força de trabalho nacional recebe R$ 3.509. O que explica este hiato tão grande?

Fatores históricos e preconceito ainda hoje

Para Liliane Rocha, CEO e fundadora da consultoria de diversidade Gestão Káiros, a diferença entre os salários e os cargos de negros e brancos dentro das empresas se dá por fatores históricos, bem como por preconceitos que a sociedade, mesmo no século 21, ainda cultiva. 

"Temos uma história muito recente de escravidão, e a Lei Áurea, que falava sobre a liberdade do povo preto, não considerava onde essas pessoas iriam trabalhar", diz. 

Problema estrutural

Existe, é claro, também uma questão estrutural. Apenas 11% da população negra concluiu o ensino superior, quase o mesmo contingente que não frequentou a escola --são 8%, contra 4% dos não negros.

Dos que foram à escola, 91% estudaram em colégio público e 89% nunca fizeram cursos de idiomas, enquanto 74% nunca receberam nenhuma certificação profissional. Num mundo em que os currículos ditam o sucesso, essa parcela da população já começa a corrida em situação de desvantagem.

"Muitos dos parâmetros que costumam ser utilizados para contratar e promover dentro de empresas têm a ver com a renda do trabalhador, como mostra a nossa pesquisa. A escola em que estudou, habilidade com idiomas", diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. 

Para Rocha, programas que não pedem inglês para contratar os funcionários e que focam em negros não são "nivelar a régua por baixo", como argumentam algumas empresas. "Devemos pensar que é preciso mudar a régua, colocando-a na horizontal. Focando em públicos mais vulneráveis, você está mudando o jogo e colocando a régua à luz do nosso século", afirma. 

Como resultado dessa disparidade, 29% da população negra está inserida nas classes D e E, 52% na classe C, e apenas 19% na classe A. Se compararmos com a outra parcela da população, 13% se encontram nas classes D e E, 45% na C, e outros 42% estão entre os mais ricos.

"Hoje, as escolas de negócios já começam a passar uma outra visão. O trabalhador que consegue ser criativo, resolver problemas em momentos de crise e lidar com o diferente vai ter vantagem", afirma Meirelles.

negros racismo
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Racismo existe, sim

É preciso que o brasileiro entenda que, além de o racismo existir no país, qualquer pessoa pode estar sujeita a cometer atitudes racistas. Ainda no levantamento, realizado com 1.630 pessoas de 72 cidades, 84% afirmam que o Brasil é um país preconceituoso e 76% entendem que as pessoas negras são mais discriminadas no mercado de trabalho. 

No entanto, apenas 4% das pessoas ouvidas admitem ter qualquer tipo de preconceito racial e, quando estimulados, 61% concordam com a frase “a patrulha do politicamente correto está deixando o mundo chato”. Coincidência ou não, 52% dos trabalhadores pretos afirmam ter sofrido racismo no ambiente de trabalho.

Empresas aprendendo na marra

Estes dados preocupantes têm se materializado em várias empresas brasileiras da pior forma possível. O próprio Carrefour, que diz trabalhar temáticas raciais e de diversidade dentro da companhia desde 2012, precisou subir o tom após João Alberto Silveira Freitas ser morto por seguranças de uma de suas lojas no dia 19 de novembro.

Para demonstrar este compromisso, foram elaboradas mais de 50 medidas. Na última quarta-feira, por exemplo, foi firmado um acordo com mais de 16 mil fornecedores para que estas empresas também passem a seguir regras de fomento à diversidade e de combate ao racismo, sob pena de multa e rescisão de contratos vigentes. 

Internamente, houve ainda um reforço da cartilha de diversidade existente e a criação de um programa de letramento racial, desenvolvido em parceria com o professor e advogado Silvio Almeida e disponibilizado ao público no site naovamosesquecer.com.br

Neste caso, a mobilização interna se encontrou com uma latente demanda externa. A pesquisa mostra que 85% dos consumidores não comprariam de marcas que, de alguma forma, não respeitem a diversidade, e 87% preferem marcas que promovam e apoiem iniciativas em prol de uma maior diversidade racial.

Recentemente, após o Magazine Luiza divulgar um programa exclusivo para a contratação de negros, a cofundadora e presidente do Nubank no Brasil, Cris Junqueira, afirmou que não faria o mesmo apenas para "nivelar por baixo". A fala ganhou repercussão nacional.

Em nota, o Nubank afirmou que "desde o ano passado tem uma série de medidas para ajudar a combater as barreiras impostas pelo racismo estrutural". "A diversidade sempre foi um dos pilares da empresa e nós nos demos conta que tínhamos avançado pouco na pauta racial. Então, ao mesmo tempo em que aceleramos ações que já estavam nos nossos planos, incluímos diversas outras iniciativas para maximizar o nosso impacto", disse a empresa. "Como fruto das iniciativas, já recebemos mais de 60 mil currículos de pessoas autodeclaradas pretas e pardas e quase metade das contratações (45%) realizadas este este ano foram de profissionais negros e negras. A equipe de diversidade e inclusão também cresceu —  hoje conta com treze pessoas (mais que o triplo em relação ao fim de 2020) e segue contratando."

Apenas brancos no topo

Apesar de algumas empresas estarem preocupadas com a contratação de mais negros na empresa e de o interesse por temas sociais, como o racismo, ter crescido, o mesmo não parece ser verdade para cargos mais altos.

Nas empresas brasileiras, o número de pessoas negras em posições de liderança é menor do que 30%, segundo o IBGE, enquanto homens brancos representam 69,3% do topo do nível hierárquico nas companhias. 

O que acontece, para Rocha, é que muitas empresas focam em criar comitês separados sobre diversidade, mas não sabem como contratar, reter e desenvolver o talento para que ele alcance cargos mais altos, ou não se preocupam em contratar "gente de fora" para posições estratégicas. 

"É relativamente mais fácil montar um comitê racial do que levar um negro para o conselho administrativo. As companhias trazem negros para falar sobre negros, o que, obviamente, é importante, mas não tem uma pessoa negra na decisão dos negócios", diz. 

E, de acordo com o Instituto Ethos, a situação piora quando estamos falando das 500 maiores empresas do Brasil: apenas 4,7% têm cargos de liderança nelas. O número é ainda mais baixo quando o assunto são as mulheres negras, representando apenas 0,9% da liderança das maiores. 

Não é só no Brasil que isso acontece. Nos Estados Unidos, onde 13,9% da população se identifica como negra, apenas 3,2% dos cargos executivos são ocupados por negros, segundo uma análise feita pelo "Center for Talent Innovation" em 2019. 

"Percebemos que os todos os caminhos de entrada, como programas de estágio e de trainee, são importantes, mas demoram para que essas pessoas cheguem aos cargos mais altos. Por isso, também estamos criando um programa de aceleração de talentos para que essa ascensão seja mais rápida", diz João Senise, vice-presidente de Recursos Humanos do Carrefour.


Fonte: CNN Brasil

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