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Juliette diz que não quer ser colocada num pedestal

Publicado em: Terça-feira, 08 de Junho de 2021, 11:34h - Por: Redação
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Reprodução

Com os cabelos superlongos repartidos ao meio, lisos e soltos sobre um trench coat Dior, Juliette Freire se olha no espelho. “Estão sabendo que sou irmã das Kardashians?”, brinca. Da suíte presidencial de um hotel em São Paulo, ela segue para o heliponto onde foram feitas as fotos que estampam esta edição. Em uma caixinha de som, a paraibana Elba Ramalho, sua conterrânea, entoa os versos de “Ai que Saudade d’Ocê”, quando a estrela entra no set. “Vocês estão jurando que eu sou modelo mesmo, né?”, diz à fotógrafa que pede uma pose diferente. É sua estreia em uma capa de revista, e ela está com a capital a seus pés. Essa é apenas uma das experiências que a menina que cresceu ajudando a mãe no salão de beleza, numa casa muito simples na periferia de Campina Grande, na Paraíba, nunca imaginou viver. “A sensação é que acabei de descer de uma nave espacial”, relata.

Naquela noite, Juliette, de 31 anos, havia varado a madrugada lendo os comentários de seus quase 30 milhões de seguidores no Instagram e as inúmeras notícias sobre ela que pipocavam na internet. “Descobri que rico não dorme”, diverte-se. A insônia tem justificativa. Apenas três noites antes, ela havia saído da casa do Big Brother Brasil 21 campeã, com 90,15% dos votos – feito inédito na história do programa, em uma final tripla. Coerente, empática e aberta ao diálogo, Juliette funcionou como uma espécie de sopro para um público carente de esperança e vacina, às voltas com a segunda onda de covid-19 no Brasil. “Sou muito grata em saber que o meu jeito conquistou as pessoas. Alguém gostar de você só por ser você é quase como uma mãe que gosta de um filho só porque ele nasceu”, diz.

Juliette é a primeira filha da cabeleireira Fátima Freire e a quinta do mecânico Lourival Feitosa. Quando se casaram, três anos antes de ela nascer, Fátima havia assumido os cuidados dos quatro meninos, abandonados pela mãe. “Eu enxergava muita carência no olhar deles, mais do que em falas. E não achava justo eu ser filha do meu pai e da minha mãe e eles não”, conta a paraibana. Basicamente, Juliette se sentia culpada por ter mãe. “Sempre tentei igualar nossas situações. Se meu copo estivesse um centímetro mais cheio do que o deles, media todos para ninguém ter menos”, lembra. Foi ao lado de WashingtonLourival JúniorOttoJosé Valdelino e da caçula Julienne que viveu as aventuras da infância no bairro Pedregal, comunidade extremamente pobre de Campina Grande. Os pais trabalhavam fora, e a rua era o playground da turma. “Ela era uma menina muito alegre, soltava pipa, brincava descalça... Era moleca”, conta Fátima.

As crianças assumiram responsabilidades para ajudar no orçamento da casa cedo. Aos 6 anos, Juliette aprendeu a lavar os cabelos da clientela da mãe. Aos 8, já se aventurava a passar máquina zero na cabeça dos “pirralhos da rua”, enquanto Julienne varria os fios que se espalhavam pelo chão. Washington, o único dos meninos que escolheu não ir para a oficina do pai, escovava a mulherada. O trio de ajudantes era remunerado por isso. “Ganhava R$ 1 por corte, ficava toda animada”, conta. O ofício não saía de sua cabeça nem nos períodos de descanso. “Quando dormia, sonhava com cabelos.” O que mais recorda, no entanto, e que a marcou profundamente, é a união da família, a quem sempre foi muito ligada. “Um cuidava do outro e resolvia tudo junto. A gente era muito feliz.”

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

Nessa fase, Juliette registrou sua primeira percepção sobre a desigualdade social. “Não entendia por que algumas pessoas tinham mais do que outras”, conta. Em uma de suas falas mais famosas no BBB, anos mais tarde, explicou o que elabora desde pequena com linguagem simples e direta. “Na falta e na carência do Estado [nas favelas] é que a criminalidade toma autoridade e faz exército e aliados. Porque, se o Estado despreza a comunidade, e o criminoso acolhe, ele [o morador] vai ser leal a quem? A criança vai ver quem como ídolo? E a população vai ver quem como aliado?”, disse diante de todo o país. A conversa pautou a imprensa, rendeu até análise de especialista. É que Juliette falava com a propriedade de quem cresceu em um dos lugares mais violentos da cidade. “Lá, a violência era normalizada. Tinha troca de tiro, polícia entrando na favela. Mas não me dava medo. Eu só me protegia e esperava passar”, recorda.

Ano passado, eu morri

Desde o nascimento de sua irmã, Julienne, dois anos mais nova que ela, Juliette tomou para si a responsabilidade de cuidar da caçula. Ela guarda até hoje a carta que a então menina escreveu, em que a chamava de ‘irmãe’. A relação das duas misturava mesmo os papéis. Era à mais velha que Neguinha, apelido carinhoso de Julienne, pedia permissão para sair. “Minha mãe ficava com a parte boa e eu botava limites. Decidia tudo sobre a vida dela, tinha um instinto de proteção monstruoso”, admite. Não foram poucas as vezes em que Fátima enfiou travesseiros sob o lençol da cama para acobertar a ausência da filha mais nova. Pois Juliette não deixava barato. Quando descobria o complô, baixava nas festas atrás da caçula e a carregava para casa. “Não sei como é ser mãe, mas acho que é tipo isso”, diz.

Quando tinha 17 anos, no entanto, a menina sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Juliette passou dias e dias no corredor do hospital público onde a caçula foi internada. Entre uma oração e outra, escrevia os bilhetes que a equipe lia para a paciente, em coma na UTI. “Sua irmã está aqui. Você não está sozinha”, rabiscava em pedaços de papel. Depois de quase um mês, Julienne não resistiu e morreu. “Morri junto. Morri na fé, nas minhas forças. Me entreguei”, lembra Juliet­te. “Era como se eu tivesse brigado com Deus”, emociona-se. Prostrada na cama, se recusava a reagir. Não comia, não conversava, nem sequer mudava de posição. A dor nas articulações era mais suportável do que a ideia de viver sem a irmã. Em um ato de desespero, Fátima ajoelhou-se ao lado da cama e implorou: “Minha filha, se você morrer eu morro junto”, disse. Com os olhos marejados, a ex-BBB termina a história: “Percebi que estava matando minha mãe também. Aí não tive escolha. Engoli meu choro e levantei.” Estava decidida a ficar e fazer seu melhor. 

Juliette definiu ali que viveria intensamente. “Voltei com a consciência de que posso morrer a qualquer momento. Minha irmã era saudável, jovem, e eu a amava como a mim mesma. Determinei então que faria tudo que pudesse, e o mais rápido possível”, conta. “Por isso que sou tão agoniada. Quero fazer mil coisas antes de terminar o dia. Durmo pensando no que podia ter feito, falado, pedido desculpa, ido a algum lugar. Porque realmente não sei o que vai acontecer amanhã.”

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

Foi nessa época que Juliette deixou Campina Grande e foi estudar em João Pessoa, capital do Estado. Formou-se em direito na Universidade Federal da Paraíba e, convencida de que não viveria sem emoção, decidiu que se tornaria delegada ou defensora pública. “Meus irmãos me chamavam de delegada e juíza. Quando acontecia um tema polêmico, a gente fazia o julgamento em casa e eu defendia todo mundo”, diverte-se. Decidida a seguir carreira na área de direitos humanos, debruçou-se sobre os livros e conseguiu um estágio na Defensoria Pública da União. Começava ali uma rotina de estudos para concursos públicos, que só parou quando ela entrou para o BBB, em janeiro deste ano.

Enquanto se preparava para realizar seu sonho profissional, Juliette cuidava do estúdio que havia aberto em sociedade com três amigas, o Cabine Beauty. “Sociedade entre aspas, porque o dinheiro era delas. Eu entrei com a coragem, a beleza, uma cadeira e as minhas maquiagens”, conta aos risos. “Mas a gente se chamava de sócias porque achava chique.” Embora só tenha virado seu ganha-pão nos tempos de faculdade, a maquiagem entrou em sua vida anos antes por influência de um ex-namorado do irmão. “Ele era drag queen e, quando o vi se montando, fiquei encantada”, conta. Dali em diante, tornou-se a maquiadora oficial das amigas – que em dias de festa formavam filas para ser produzidas por ela.

Até 2020, a profissão lhe garantia a renda para pagar metade do aluguel do apartamento que dividia com uma amiga e suas demais contas. Mas, como milhões de brasileiros, viu seus sonhos se desfazerem quando a pandemia foi decretada. Fechou o negócio. “Nosso estúdio era uma casinha de bonecas, a coisa mais linda. Tínhamos o maior orgulho dele, e vimos tudo se esvair”, lamenta Deborah Vidjinsky, braço direito da campeã do BBB 21. Das sócias – duas eram casadas e uma vivia com a mãe –, Juliette foi a que mais sofreu com a quebra. Todas tinham um suporte, ela não. Estava em desespero, mas não tinha muito o que fazer.

Apesar do talento com esponjas e pincéis, Juliette foi uma adolescente sem vaidade. “Não me aceitava bem. Tinha muita espinha, usava aparelho e era bastante gordinha. Talvez por isso nem ligasse para paquera.” Começou a ficar, segundo suas palavras, “mais espertinha” no quesito garotos aos 15 anos. “Quando despertei, fiquei enxerida. Foi igual Juscelino Kubitschek, 50 anos em 5”, gargalha.

Para isso, conta com familiares e amigos, seu refúgio para não se perder. A vida amorosa, mais uma vez, está em stand-by. Não que esteja fechada para o amor ou para a ideia de ter a própria família. “Havia decidido não ter filhos, mas existia uma dúvida carinhosa dentro de mim”, lembra. No BBB, o questionamento só aumentou. “Naquele período de extrema sensibilidade, meus sentimentos estavam mais fortes que minha razão. Então, comecei a cogitar [a maternidade]. Mas, antes, ainda quero outras coisas, inclusive me apaixonar”, diz Juliette, cheia de cautela. “Se eu disser que quero ser mãe, já vão escolher o pai. Não quero isso, pelo amor de Deus. Meu filho agora é um milhão e meio”, brinca.

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

Juliette (Foto: Bruna Castanheira)

É txóp!

“Quando dizem que sou fofinha, fico achando que esse povo não assistiu ao Big Brother. Na minha cabeça, sou muito braba”, afirma. Sua melhor amiga não a deixa mentir. “Ela é um pouquinho de tudo, na hora que tem que ser. Se precisa ser forte, é uma rocha. Se sensível, uma manteiga”, entrega Deborah. “Me acho bem incisiva. Não baixo a cabeça se algo realmente me machuca. Não admito humilhação, nem comigo nem com ninguém. Se puder intervir, eu intervenho. Se vier colocar o dedo nas minhas feridas, aí eu cresço.” Sua firmeza e transparência, aliás, foram algumas de suas marcas no programa, sobretudo após uma espécie de boicote que sofreu de alguns participantes do reality, que chegaram a criticar seu sotaque e vocabulário nordestinos, afirmando que ela não sabia se comunicar.

Mas o (quase) cancelamento de Juliette dentro do reality fez o público comprar suas dores. Enquanto sua língua solta divertiu, suas lágrimas comoveram a audiência. “Juliette é muito verdadeira, muito gente como a gente. Acho que por isso teve tanta identificação e apoio a ela aqui fora”, avalia a influenciadora Camilla de Lucas, segunda colocada no BBB 21. “Estava tão nervosa e tão perdida no jogo que não tinha escolha: ou eu era eu, ou ia embora. Ia dormir agradecendo e acordava rezando para não perder a cabeça e pedir pra sair”, conta a campeã.

Como mulher nordestina, Juliette sentiu na pele a xenofobia bem antes de gritar o orgulho por suas raízes em horário nobre na TV Globo. “Já riram muito do meu jeito de falar”, lembra. Também perdeu a conta de quantas vezes foi tachada de puta, burra, frágil, interesseira. Já tentaram, inclusive, comprá-la. “Me diziam: ‘Quanto é que tu ganha? A gente te paga, vamos curtir na festa.’” Ela crava: “A mulher que disser que nunca passou por assédio ou machismo não está entendendo muito bem do que se trata”.

Enquanto isso, tem outra tarefa importante a realizar: decidir seu destino profissional. Após revelar seu talento para a música no Big Brother, não faltaram convites para parcerias musicais. Um deles, de seu grande ídolo, Chico César, para regravar “Deus Me Proteja”, música que virou uma espécie de hino pessoal. “Se estão dizendo que tenho talento, acredito. Pronto, vou adorar ser cantora.”

No momento, o que ela quer mesmo é voltar a dormir. “Meu sonho [risos]! Preciso de saúde mental e física para retribuir tudo que as pessoas fizeram por mim até aqui”, pondera.

Mas, afinal, quem era a Juliette antes do BBB e quem é agora? A resposta vem de pronto. “A mesma pessoa, só que milionária”, dispara, aos risos. “Entrei no reality muito lascada, e com a pandemia fiquei 50 vezes pior, mas muito otimista e com fé de que no final tudo daria certo”, afirma. Por enquanto, está satisfeita com a mudança de status, ainda em fase de assimilação, e animada com o que sua nova fase promete. “Sou muito mais feliz, acolhida e hoje tenho a certeza de que nada foi em vão”, garante. “Tenho a alma lavada e dinheiro no bolso.”

 

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Fonte: CNN Brasil

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