Política

Os motivos do recuo de Bolsonaro: do ataque à democracia a pedido de desculpas

Publicado em: Sexta-feira, 10 de Setembro de 2021, 08:44h - Por: Redação
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Dois dias depois de elevar a crise institucional ao maior patamar até então, o presidente Jair Bolsonaro voltou atrás com os ataques feitos ao Judiciário. Divulgou uma carta em que atribuiu seus xingamentos e ameaças contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a um arroubo provocado pelo “calor do momento”. No documento, intitulado “Declaração à Nação” e redigido com a ajuda do ex-presidente Michel Temer, ele sustenta ainda que não teve a intenção de agredir outros Poderes. O gesto, embora tenha aliviado a tensão por ora, foi visto com ceticismo na Corte.

A completa mudança de Bolsonaro ocorreu após uma campanha inciada por alguns de seus auxiliares de primeiro e segundo escalões logo após os atos de 7 de setembro. Os ministros Ciro Nogueira, da Casa Civil; e Flávia Arruda, da secretaria de Governo, assim como o advogado-geral da União, Bruno Bianco, transmitiram ao chefe que a tensão da relação com o STF, principalmente, e o Legislativo havia atingido níveis insustentáveis. Ainda assim, mesmo interlocutores próximos de Bolsonaro foram pegos de surpresa pela carta.

O movimento guarda relação direta com a forte e quase imediata repercussão negativa do ataques presidenciais. Entre as consequências, o assunto impeachment subiu de temperatura da Câmara, e medidas importantes para conter a escalada da crise econômica, como a construção de uma saída para o aumento dos precatórios em 2022, em negocião no Supremo, emperraram.

A reação ao seu discurso antidemocrático, que dentre outros absurdos, afirmou que não iria cumprir as ordens judiciais de Alexandre de Moraes, o qual até mesmo o chamou de canalha, provocou uma reação em cadeia. Vários partidos marcaram reuniões com suas bancadas para debater o Impeachment. PSDB e MDB, partidos de sua base aliada, já demonstram ser a favor do afastamento do presidente.

No dia seguinte, as principias autoridades do país se manisfestaram: Artur Lira fez várias indiretas a Bolsonaro, referindo-se à Câmara, da qual ele é presidente, como elo entre o Executivo e o Judiciário. Mas Luiz Fux, presidente do STF e Augusto Aras, o Procurador-Geral da República, na sessão de abertura de julgamento da Corte, foram incisivos e afirmaram veemenemente que a democracia é a base de uma sociedade livre e justa.

Já na quinta-feira foi a vez de Luís Roberto Barroso, minsitro do STF e também presidente do Tribunal Superior Eleitoral, dá uma lição de moral em Bolsonaro. Declarou que já estava cansativo ter que a todo instante desmentir as falas do chefe máximo da nação sobre a segurança e transparência das urnas eletrônicas, assunto, devidamente encerrado na Câmara, após derrota em plenário, levado para os palcos das manifestações em Brasília e São Paulo no feriado nacional.

Como se não bastasse a maior crise médico-sanitária, que aprofundou os índices de desemprego e o aumento da inflação, encarecedora dos preços dos alimentos, do gás e da gasolina, Bolsonaro se limitou a proferir nos seus discursos do 7 de Setembro ameaças à democracia, em que afirmou que não cumpriria as ordens judiciais de Moraes, num flagrante crime de responsabilidade, passível de Impeachment, ataques aos ministros do STF, com xingamentos e intimidações, e contestações infundadas sobre as urnas eletrônicas. Nem de longe tratou sobre os problemas sociais que atingem os milhões de brasileiros, que somam 120 milhões em risco alimentar (aqueles que não fazem todas as refeições no dia ou que comem sem qualidade) e quase 15 milhões de pessoas sem trabalho, algo que trava mais ainda o crescimento econômico, cujo PIB já começou a sentir esse cenário devastador, caindo 0,1% no último trimestre.

Depois de tantas críticas, vendo-se isolado politicamente, à frente de um país na iminência de um racionamento energético, para se somar a tantas outras questões e com falta diálogo com o STF, Bolsonaro resolveu fazer um comunicado formal ao país. Inclusive chegou a telefonar para Moraes para pedir desculpas. E já há um encontro marcado para os próximos dias entre os dois, também intemediado por Temer.       

Segundo a Constituição,“constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Segundo a Constituição,“constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro costumam pedir intervenção militar em atos a favor do presidente Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro costumam pedir intervenção militar em atos a favor do presidente Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Em junho de 2020, bolsonaristas levaram diversas faixas pedindo intervenção para ato em Brasília Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Em junho de 2020, bolsonaristas levaram diversas faixas pedindo intervenção para ato em Brasília Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Os manifestantes foram às ruas dois meses depois do STF abrir inquérito para investigar a organização e o financiamento de atos antidemocráticos Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
Os manifestantes foram às ruas dois meses depois do STF abrir inquérito para investigar a organização e o financiamento de atos antidemocráticos Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo 28/06/2020
O presidente sobrevoou de helicóptero ato pró-governo em Brasília, também marcado por pedidos de intervenção militar, em maio de 2021 Foto: Agência O Globo 01/05/2021
O presidente sobrevoou de helicóptero ato pró-governo em Brasília, também marcado por pedidos de intervenção militar, em maio de 2021 Foto: Agência O Globo 01/05/2021

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Em abril de 2020, Bolsonaro chegou a discursar em protesto na frente de um quartel do Exército em Brasília, onde manifestantes pediam intervenção militar, o fechamento do Congresso e do STF Foto: PEDRO LADEIRA 19/04/2020 / PEDRO LADEIRA
Em abril de 2020, Bolsonaro chegou a discursar em protesto na frente de um quartel do Exército em Brasília, onde manifestantes pediam intervenção militar, o fechamento do Congresso e do STF Foto: PEDRO LADEIRA 19/04/2020 / PEDRO LADEIRA
Na foto, manifestante participa de ato pró-Bolsonaro, em Copacabana 01/08/2021 Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Na foto, manifestante participa de ato pró-Bolsonaro, em Copacabana 01/08/2021 Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Manifestantes pró-Bolsonaro protestam contra o Supremo e seus ministros. Na foto, protesto na AV. Paulista, em São Paulo Foto: André Horta / Agência O Globo
Manifestantes pró-Bolsonaro protestam contra o Supremo e seus ministros. Na foto, protesto na AV. Paulista, em São Paulo Foto: André Horta / Agência O Globo
O presidente do PTB, Roberto Jefferson, preso por ataques às instituições democráticas, participou de ato pró-Bolsonaro em Brasília, que pedia a liberação do porte de armas no país Foto: Jorge William / Agência O Globo 09/07/2020
O presidente do PTB, Roberto Jefferson, preso por ataques às instituições democráticas, participou de ato pró-Bolsonaro em Brasília, que pedia a liberação do porte de armas no país Foto: Jorge William / Agência O Globo 09/07/2020
Em manifestação na Vila Militar, em Deodoro, no Rio, bolsonaristas chegaram a pedir a volta do AI-5 Foto: Cléber Júnior / Agência O Globo 19-04-2020
Em manifestação na Vila Militar, em Deodoro, no Rio, bolsonaristas chegaram a pedir a volta do AI-5 Foto: Cléber Júnior / Agência O Globo 19-04-2020
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